Juliana Santos, que já vestiu mais de 2.300 noivas em cerca de 12 anos de carreira, cria vestidos a partir da história e da espiritualidade de cada cliente e já alcançou milhões de visualizações nas redes sociais

Depois de cerca de 12 anos atuando no mercado de vestidos de noiva e mais de 2.300 mulheres vestidas, a estilista e artista Juliana Santos, do Tatuapé, em São Paulo, inicia uma nova fase de sua carreira: a criação de vestidos para noivas de Umbanda, Candomblé e outras tradições de matriz africana, transformando histórias pessoais, espiritualidade e referências aos orixás em peças autorais.

A proposta, porém, não parte de uma coleção fechada ou de uma estética única. Cada vestido é criado a partir do pedido e da história da própria noiva. A cliente conta sua relação com a fé, o orixá com o qual se identifica, uma história que deseja representar ou aquilo que gostaria de levar para o altar. A partir dessas informações, Juliana pesquisa e desenvolve a criação.

“Cada vestido nasce de um pedido. A cliente me conta quem é o seu orixá, o que aquela entidade representa para ela e o que gostaria de trazer para o vestido. A partir disso, começo a pesquisar e criar”, explica.

Um dos exemplos é o vestido de uma noiva filha de Oxum. Inicialmente, a peça seria um vestido de cetim mais tradicional, com detalhes dourados. Durante o processo de criação, porém, Juliana teve a ideia de representar no vestido um conto de Oxum, retratando a orixá junto a uma cachoeira, recolhendo lírios. A cena foi pintada à mão diretamente na peça, em um trabalho que levou cerca de 8 horas.

O resultado viralizou. Um vídeo publicado no TikTok em agosto de 2025 alcançou aproximadamente 847 mil visualizações, além de 51,8 mil curtidas, 2.325 comentários, 2.402 salvamentos e 2.705 compartilhamentos. No Instagram, o conteúdo chegou a cerca de 72,7 mil visualizações.

A partir desse trabalho, Juliana passou a receber novas procuras de mulheres ligadas às religiões de matriz africana. Outras criações trouxeram referências a Iemanjá, Oxóssi e Iansã, sempre conforme a história e o pedido de cada noiva.

Em uma criação inspirada em Iemanjá, por exemplo, Juliana trabalhou durante seis dias na construção e no bordado do vestido. Outra peça, também relacionada à orixá, ultrapassou 170 mil visualizações no Instagram.

Já em 2026, um vestido criado para uma noiva filha de Oxóssi levou aproximadamente 10 dias de pintura. O corset recebeu uma paisagem inspirada no Cerrado, com ipês brancos, amarelos e rosas. Três vídeos publicados no TikTok em setembro ultrapassaram, juntos, 3 milhões de visualizações, enquanto os conteúdos relacionados à criação no Instagram passaram de 2,5 milhões de visualizações.

Além das referências aos orixás, Juliana também incorpora elementos da memória e da vida das próprias clientes. Em uma das criações, uma noiva queria homenagear o pai falecido. A ideia inicial era representar a praia, um barco de pesca e uma rede. Durante o processo, a criação evoluiu para uma pintura do pai e da filha se abraçando à beira-mar.

Uma nova fase da carreira

A relação de Juliana com a espiritualidade começou a ganhar espaço em seu trabalho ao longo dos últimos anos. A partir das experiências com suas clientes e de sua própria trajetória, a estilista passou a compreender a criação de roupas como uma forma de contar histórias e representar vínculos afetivos e espirituais.

Em 2026, ela prepara ainda o figurino de uma família de Axé, em um casamento marcado para 12 de outubro, em Peruíbe, no litoral de São Paulo. Pela primeira vez, Juliana irá vestir juntos noiva, noivo e filho.

Para 2027, a estilista pretende concentrar sua atuação nesse segmento e trabalhar especialmente com noivas de Axé, Umbanda, Candomblé e Ifá. A meta é criar pelo menos 40 vestidos para noivas de Axé ao longo do ano.

A intenção também é ampliar a produção de roupas para entidades e médiuns, além de buscar parcerias com redes e instituições ligadas à Umbanda e outras tradições de matriz africana.

Para 2028, Juliana planeja levar esse trabalho para uma exposição em uma galeria ou museu de São Paulo, reunindo vestidos, histórias das noivas e registros audiovisuais do processo de criação.

Um mercado que também ganha visibilidade

O movimento acompanha o crescimento da presença declarada das religiões de matriz africana nos dados oficiais. Segundo o Censo 2022 do IBGE, a parcela da população brasileira com 10 anos ou mais que se declarou pertencente à Umbanda e ao Candomblé passou de 0,3% em 2010 para 1,0% em 2022.

O calendário nacional também contempla essas tradições. O Dia Nacional da Umbanda, celebrado em 15 de novembro, foi instituído pela Lei nº 12.644/2012. Já o dia 21 de março foi estabelecido pela Lei nº 14.519/2023 como o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé.

Para Juliana, o vestido de noiva deixa de ser apenas uma peça de moda e passa a funcionar como uma espécie de narrativa visual: uma forma de levar para o altar a história, a memória, a identidade e a fé de cada mulher.

Sobre Juliana Santos

Juliana Santos é estilista e artista com cerca de 12 anos de atuação no mercado de vestidos de noiva, tendo vestido mais de 2.300 mulheres. Seu ateliê está localizado no Tatuapé, em São Paulo. Ao longo da carreira, desenvolveu trabalhos voltados à inclusão, representação e valorização da individualidade das mulheres. Atualmente, amplia sua atuação para a criação de vestidos personalizados para noivas de Axé, a partir das histórias e referências espirituais apresentadas por cada cliente.