Com entrada gratuita, a mostra estreia em 31 de março com cerca de 500 itens, entre obras e documentos, incluindo o Mapa Invertido (1943), que expressa o pensamento de decolonialidade; 

O Centro Cultural Banco do Brasil Brasília recebe, a partir de 31 de março, a exposição internacional Joaquín Torres García – 150 anos, inédita no país.

A mostra celebra a trajetória de um dos pilares da arte moderna na América Latina, com cerca de 500 itens, entres obras e documentos, incluindo pinturas, manuscritos inéditos, maquetes, desenhos e os célebres brinquedos de madeira produzidos pela família do artista uruguaio.  

Com curadoria de Saulo di Tarso em colaboração com o Museo Torres García e organização da Cy Museum, é a primeira vez que esse conjunto tão amplo e diversificado do artista é apresentado no Brasil, com peças que deixarão pela primeira vez as reservas técnicas do museu uruguaio, revelando ao público aspectos pouco conhecidos da produção do artista.  .  

A mostra aprofunda o entendimento sobre o “universalismo construtivo” e apresenta Torres García como um pensador de alcance global. A pedagogia do Taller Torres García, que defendia que os artistas da América Latina desenvolvessem uma arte própria sem depender das influências europeias e norte-americanas, também é explicada na exposição. A proposta era incentivar cada artista a buscar suas raízes, símbolos e referências locais, criando uma produção mais autêntica e conectada com a cultura do continente — algo que dialoga diretamente com a seleção presente na exposição. 

Instituições como o Museo Torres García (Uruguai), o Museu d’Art Contemporani de Barcelona [Museu de Arte Contemporânea de Barcelona], o Institut Valencià d’Art Modern [Instituto de Arte Moderna de Valência], o Museo de la Solidaridad Salvador Allende (Chile), além de coleções brasileiras como o MASP e a Pinacoteca de São Paulo, contribuem com empréstimos essenciais.  ]. 

Grandes mostras já foram dedicadas ao artista no Brasil, porém a seleção apresentada no CCBB é a primeira a reunir de forma tão ampla sua obra pictórica, gráfica, escrita e pedagógica, propondo um passo além de sua consagração como grande nome do construtivismo latino-americano, em direção a um mergulho mais profundo: posicionálo como pensador global, articulando aspectos simbólicos, filosóficos e educativos que atravessam a sua trajetória.  

Fabrício Reis, diretor comercial e de produtos da BB Asset, destaca: “acreditamos que a cultura tem um poder transformador e atua como ponte entre diferentes realidades e modos de pensar. Como maior gestora de fundos do país, entendemos a importância de apoiar iniciativas que ampliam o acesso ao conhecimento e promovem reflexão. Patrocinar esta exposição é uma forma de fortalecer esse diálogo e aproximar o público de obras que provocam, despertam e expandem horizontes, um compromisso que reafirma nosso papel em contribuir para uma sociedade mais conectada e consciente”. 

América invertida: um sul como horizonte  

Na década de 1930, Torres García desenhou um mapa da América Latina de cabeça para baixo para explicitar visualmente uma ideia que levou aos seus escritos, publicações e lições aos alunos e alunas do Taller desde então: “Nuestro norte es el sur”. Mais do que um gesto político, o desenho sintetiza: o sul como origem, o sul como referência, como base da sua própria cultura, som de sua própria voz. O gesto simbólico de inverter o mapa era uma forma de declarar independência espiritual — de reivindicar a América Latina como produtora de pensamento, criadora ancestral, e não mera extensão do Norte, americano ou europeu.  

Para o curador Saulo di Tarso, a exposição propõe atualizar esse gesto no século XXI. “Não basta falar sobre decolonialidade — é preciso praticá-la”, observa. “Esta mostra é um ato decolonial porque restitui a voz a um artista que pensou a partir da América Latina, sem complexos de inferioridade.” Longe de suavizar as contradições da obra de Torres García, a curadoria as reconhece e as traz ao diálogo contemporâneo, transformando o percurso expositivo em um espaço de escuta, ao invés de prescrever uma narrativa única.  

Nesse sentido, compõem a mostra do CCBB obras de artistas uruguaios como Pablo Uribe e Fernando Lopez Lage, que viveram a contestação da obra de Torres García. Vale mencionar, ainda, a artista visual e performer Jacqueline Lacasa, cujas obras também estarão no CCBB – ela descobriu, em 2006, fragmentos da obra de Torres García guardados desde 1979 no Museu Nacional de Artes Visuais, quando foi diretora da instituição.   

A influência de Torres García atravessou fronteiras e, no Brasil, sua obra tornou-se um solo fértil para múltiplas conexões. Em 1891, durante uma passagem pelo Rio rumo a Barcelona, registrou o Pão de Açúcar em suas memórias; também incorporou inscrições rupestres brasileiras e grafias de civilizações antigas em seus estudos. Seu pensamento, base da geometria construtiva, sustentou o desenvolvimento dos artistas concretos e neoconcretos brasileiros. 

Esse legado ecoa em nomes como Anna Bella Geiger, Carlos Zílio, Rubens Gerchman, Montez Magno, Delson Uchôa, Marconi Moreira, Paulo Nenflídio e Mano Penalva — todos presentes na exposição. “Anna Bella Geiger é a artista que melhor representa o diálogo poético em perene construção com a Escola do Sul”, afirma Saulo di Tarso, lembrando a experiência pedagógica fundada por Torres García em Montevidéu, em 1943. 

A mostra também estabelece vínculos com a arquitetura e o design. Lina Bo Bardi encontrou na visualidade de Torres García um dos pilares de sua síntese entre arte e construção. Em Joaquín Torres García – 150 anos, essa relação aparece em passagens que evocam corpo, vestir e ritual, como na obra de Arthur Bispo do Rosário. Alfredo Volpi, Cildo Meireles, Emmanuel Nassar, Hélio Oiticica e Estela Sokol completam o conjunto de artistas confirmados. 

Uma exposição para ser vivida, não apenas vista  

A expografia criada por Stella Tennenbaum a partir das provocações da curadoria em torno da linha divisória do Tratado de Tordesilhas oferece um contraste minimalista com a diversidade de obras da mostra. Uma linha contínua percorre os andares do CCBB, articulando as salas da exposição aos manuscritos e ao pensamento do artista. No térreo, essa trajetória culmina no ícone América Invertida, que surge suspenso em forma de móbile sobre a rotunda, evocando as origens e a arqueologia simbólica do continente.  

A curadoria de Saulo di Tarso parte do princípio de “deixar que Torres García fale por si”. É o que ele chama de uma “curadoria do não agir”, na qual o artista se apresenta por meio de suas próprias obras, escritos e simbologia, sem intermediários ou interpretações excessivas. O público encontrará 90 volumes manuscritos do artista, inéditos em conjunto, além de todos os desenhos que ilustram Historia de mi vida, autobiografia escrita em terceira pessoa. Publicações históricas — Cercle et Carré [Círculo e Quadrado], Escola do Sul e La ciudad sin nombre — ajudam a revelar a dimensão coletiva e formativa de sua obra, que ultrapassa a produção individual e alcança a esfera do pensamento pedagógico e social.  

“Esta é uma curadoria que escuta mais do que fala. Deixemos que o próprio Torres García conduza o percurso — suas palavras, seus símbolos e seus silêncios bastam para atualizá-lo como pensador do nosso tempo”, diz o curador Saulo di Tarso.  

Os “Juguetes” — brinquedos de madeira criados por Torres García e sua família — também têm papel central. Foram, em tempos de dificuldade financeira, um meio de sobrevivência, e tornaram-se símbolos da integração entre arte e vida. Alejandro Díaz, diretor do Museo Torres García e bisneto do artista, recorda que a fabricação dos brinquedos era um ato familiar: todos pintavam juntos, e essa prática permanece viva entre seus descendentes. Além das peças de madeira, o público poderá ver maquetes, estudos e composições murais presentes na obra Monumento Cósmico (1938), que demonstram como Torres García unia os princípios geométricos às pesquisas de símbolos e grafias da arte pré-colombiana. 

A mostra inclui ainda desenhos, estudos e pinturas que dialogam com a arqueologia e a arte pré-colombiana, premissas-base estudadas pelo artista ao longo da vida, com objetivo de estabelecer uma linguagem plástica universal. É uma exposição que se propõe a ser vivida: mais que um panorama histórico, é uma viagem sensorial e conceitual pela ideia de um “universalismo do sul”.  Neste contexto, entre as correspondências apresentadas, o curador destaca uma carta inédita enviada por Cecília Meireles a Joaquín Torres García. 

Universalismo construtivo: uma geometria com alma  

A exposição no CCBB Brasília mostra um artista que usava materiais simples para criar obras grandiosas, unindo razão e emoção. Símbolos como peixe, sol, estrela, relógio, casa, homem e mulher formam uma linguagem visual própria, presente desde desenhos pequenos até pinturas mais complexas. 

Idea (1942) e Pachamama (1944) revelam esse imaginário universal e mostram a alma do artista ora buscando o céu metafísico onde as ideias são criadas, ora baseado na natureza, na representação da terra Pachamama e nas raízes ancestrais que tanto pesquisou. Nessas obras, vemos esculturas em madeira pintada, com peças unidas por pregos ou sobrepostas — recursos comuns na produção de Torres García que despertam reflexões filosóficas profundas. 

Torres García foi um artista que experimentou muitas linguagens plásticas até a criação do seu Universalismo Construtivo, unindo a vocação geométrica à liberdade simbólica, recusando a abstração pura e a figuração mimética. Ele via a arte como forma de conhecimento — uma linguagem capaz de reconciliar o racional e o espiritual, pois o homem, para ele, é um ser completo, metafísico. Em suas composições, a estrutura não aprisiona, mas liberta: os quadrados, cruzes e círculos que organiza funcionam como portais para um mundo em equilíbrio, onde cada signo plástico — o peixe, o barco, o sol, o homem — carrega um valor cósmico e não apenas estético.  

A pesquisa curatorial contou com a participação da cubana Xênia Bergman, colaboradora da revista Arte Nexus, e das brasileiras Helena Eilers e Andrea Souza. Especialista em arte latino-americana, Eilers é pesquisadora doutoral do Centro de Investigación en Arte, Materia y Cultura da Universidad Nacional de Tres de Febrero (Untref), onde conduz estudos nanotecnológicos sobre fragmentos de obras originais. Suas análises revelam camadas de tinta, materiais e gestos invisíveis a olho nu — fundamentais para compreender as obras de Torres García que se incendiaram no Brasil em 1978. Já Andrea Souza, professora de Artes Visuais na FMU, dedica sua pesquisa à produção de Torres García e à Fábrica Aladín. 

O projeto conta ainda com a colaboração institucional de Alejandro Díaz, diretor do Museo Torres García, cuja parceria foi determinante para viabilizar a vinda dos manuscritos e desenhos inéditos — o verdadeiro coração do museu 

Conexão: Entre o Visível e o Invisível 

A exposição não se limita a uma retrospectiva, mas se constitui como espaço de convivência e aprendizado. A reunião de obras pré-colombianas, manuscritos, brinquedos, pinturas e trabalhos de artistas contemporâneos revela a amplitude de um pensamento que via na arte um meio para religar o humano ao simbólico, o visível ao invisível. “Enquanto houver crianças brincando, o mundo se espiritualiza”, afirma o curador. “E talvez essa seja a mensagem mais urgente de Torres García para os nossos tempos.”  

Cada cidade que receberá a mostra ganhará um recorte próprio: em São Paulo, o diálogo entre geometria e simbolismo; em Brasília, as relações entre arte, cidade e espaço público; e em Belo Horizonte, a conexão com a arte popular e a cultura mineira. Em todas elas, a exposição reafirma a ideia de que o sul não é uma posição geográfica, mas uma postura ética e poética diante do mundo.