MEME: no Br@sil da memeficação investiga os memes como forma de linguagem, crítica, afeto coletivo e produção estética. A mostra, que estreou em São Paulo e chega a Brasília em dezembro, explora expressões que surgem tanto nas ruas quanto nas redes sociais e que se reinventam no ambiente digital, revelando, de forma criativa, como o Brasil se narra e se transforma coletivamente.
No dia 2 de dezembro, o Centro Cultural Banco do Brasil Brasília abre ao público a primeira mostra dedicada ao fenômeno sociopolítico e cultural: MEME: no Br@sil da memeficação. Com curadoria de Clarissa Diniz e Ismael Monticelli e colaboração do perfil @newmemeseum, a exposição convida o público a explorar a memeficação como um dos modos mais potentes — e irônicos — de narrar o Brasil contemporâneo.
Depois de estrear em São Paulo, a mostra chega a Brasília reunindo cultura digital, arte contemporânea e crítica social em uma experiência inédita no país. A exposição apresenta cerca de 800 itens produzidos por 200 criadores do universo digital e artistas. Em exibição até 1º de março de 2026, a mostra ocupa as galerias 3 e 5 e o Pavilhão de Vidro do CCBB Brasília. A visitação acontece de terça a domingo, das 9h às 21h, com entrada nas galerias até as 20h40. O acesso é gratuito, mediante retirada de ingresso na bilheteria ou pelo site do CCBB, e a classificação indicativa é livre.
“Memes não são só piadas. Eles são ferramentas políticas, culturais e afetivas. São a forma como o Brasil elabora, disputa e contorna suas diferenças — sociais, raciais, de gênero e estéticas — em tempo real”, afirma Clarissa Diniz. “A exposição parte do humor para provocar: como estamos refazendo o país através de suas imagens mais debochadas?”.
“É impossível compreender o Brasil de hoje sem entender seus memes”, diz Ismael Monticelli. “Eles não apenas refletem a realidade, mas atuam sobre ela: produzem memória, disputam narrativa, geram pertencimento. Enquanto fazemos memes, os memes refazem o Brasil.”
A proposta curatorial rompe fronteiras entre o que é visto como “alta” ou “baixa” cultura, reunindo nomes consagrados da arte contemporânea brasileira, como Anna Maria Maiolino, Gretta Sarfaty, Nelson Leirner e Claudio Tozzi, ao lado de criadores de conteúdo, como Blogueirinha, Porta dos Fundos, Alessandra Araújo, Melted Vídeos, John Drops e Greengo Dictionary.
Reforçando o compromisso da BB Asset de ir além da gestão de ativos e apoiar iniciativas que conectam cultura, inovação e diversidade, Gustavo Pacheco, CEO da BB Asset destaca: “Acreditamos que compreender o presente é essencial para construir o futuro. Apoiar uma exposição que investiga os memes como linguagem e expressão cultural é reconhecer a força das novas formas de comunicação na sociedade brasileira. Essa mostra revela como criatividade e crítica se encontram no ambiente digital, influenciando comportamentos e narrativas.”
O meme antes do meme
Organizada em cinco núcleos temáticos — Ao pé da letra, A hora dos amadores, Da versão à inversão, O eu proliferado, Combater ficção com ficção — e tendo como prólogo um espaço tátil intitulado Alisa meu pelo e epílogo Memes: o que são? Onde vivem? Do que se alimentam? —, a mostra conta com cenografia imersiva e uma ampla diversidade de linguagens: vídeos, neons, esculturas, roupas, quadrinhos, pinturas, objetos, backlights, instalações sonoras e experiências interativas.
“A exposição não tem a ambição de ser um inventário do humor nacional, mas de investigar os memes como uma linguagem viva, que transborda a internet e afeta diretamente nossas formas de pensar, sentir e agir”, afirma Ismael Monticelli. “Eles são dispositivos de memória, de disputa e de pertencimento, que operam em altíssima velocidade e atravessam todas as camadas da vida social.”
“Queremos provocar o público a pensar: será que essa vocação memética do Brasil começou mesmo com os memes digitais?”, questiona Clarissa Diniz. “Ou será que ela já se anunciava no carnaval, nos bordões da TV, nas pichações e nos outdoors? O que acontece quando política, publicidade e arte se dobram aos formatos da zoeira?”
Além da ocupação física no CCBB, o projeto se estende ao ambiente digital com uma série de ativações especialmente desenvolvidas para as redes sociais. Em parceria com o perfil de memes @newmemeseum, curadorias de conteúdos exclusivos serão compartilhados on-line, ampliando o alcance da exposição e promovendo engajamento, acesso e debate com públicos diversos — muito além das paredes do museu.
| Vista do núcleo O eu proliferado, que investiga a ascensão do “eu” como espetáculo nas redes, onde a vida privada se converte em performance contínua. Ao mesmo tempo em que essa visibilidade pode afirmar identidades e narrativas antes marginalizadas, ela expõe os efeitos da hiperexposição e da lógica neoliberal, que transforma autoestima em mercadoria e fragiliza o bem-estar emocional. Foto de Edson Kumasaka. |
Percurso da mostra
Prólogo – Alisa meu pelo
O meme Alisa meu pelo, surgido em 2017 a partir da onça-pintada da nota de R$ 50 acompanhada da legenda “Alisa meu pelo (onça carente)”, viralizou ao ressignificar a onça não como ícone de virilidade, mas como símbolo afetivo, carente e próximo. Ao se difundir, o meme passou a comentar o próprio Brasil de forma leve e zombeteira, ativando uma produção simbólica popular e participativa. Na exposição, onças em diferentes materiais convidam o público ao toque e à interação, ampliando esse gesto coletivo de humor e reflexão. Participaram da criação das onças os artistas José Francisco Afrânio, Jorge Gomes e Vinicius Vaitsmann.
1. Ao pé da letra
No primeiro núcleo da exposição, o foco recai sobre os jogos semânticos e os descompassos entre texto e imagem que tornam os memes tão eficazes em gerar riso, crítica e estranhamento. Em vez de explicarem um ao outro, palavras e figuras se combinam para formar sentidos inesperados — ou se colam literalmente, desnaturalizando expressões e convenções sociais. Aborda práticas como o uso de emojis, narrações e dublagens cômicas, além de línguas digitais, como o tiopês e o pajubá, e estruturas como o snowclone, revelando como essas invenções linguísticas produzem deslocamentos de sentido e potência crítica.
Alguns criadores presentes no núcleo são: Amanda Magalhães (@amandzmagalhaes), Daniel Santiago, Frimes (@frimes), Greengo Dictionary (@greengodictionary), Guto TV (@gutotvreal), Leandra Espírito Santo, Melted Vídeos (@meltedvideos), Nelson Leirner, Pamella Anderson, Panos Subversivos (@panossubversivos), Rafael Portugal (@rafaelportugal), Raquel Real (@raquelrealoficial), Roxinha e Ruth Lemos.
2. A hora dos amadores
Inspirado pela célebre capa da revista Time de 2006 — que elegeu “você” como a personalidade do ano —, este núcleo aborda a virada provocada pela internet e pelas redes sociais, que deram visibilidade inédita às “pessoas comuns”. Os memes, nesse contexto, aparecem como uma tecnologia social de protagonismo, permitindo que vozes antes apagadas ou silenciadas ocupem o centro da cena cultural. Em países como o Brasil, marcados por fortes desigualdades, os memes se tornaram um território fértil para narrativas insurgentes: do humor que revela a precariedade cotidiana à crítica social feita com poucos recursos e muita sagacidade. Este núcleo celebra essa potência do amadorismo como desvio criativo e força política.
Alguns criadores presentes no núcleo são: Alessandra Araújo (@alessandraraujooficial), Valdisnei (Lourival Cuquinha e Daniela Brilhante), Malfeitona (@malfeitona), O Brasil que deu certo (@obrasilquedeucerto) e Raphael Vicente (@raphaelvicente).
3. Da versão à inversão
Se a imitação é uma das bases da linguagem memética, aqui ela é entendida como gesto crítico e criativo. Este núcleo mostra como memes transformam cópias em versões que subvertem e desmontam o original, produzindo humor, paródia e comentário social.
A exposição apresenta desde pequenas alterações — como trocar uma palavra ou fazer um recorte específico de imagem — até inversões radicais: mulheres imitando homens, humanos dublando animais e estéticas que embaralham as fronteiras entre identidade e representação. Como no carnaval, o riso vem da inversão — e, nela, uma crítica se insinua.
Alguns criadores presentes no núcleo são: A vida de Tina (@avidadetina), Alexandre Mury, Festa da Firma (@festadafirma), John Drops (@johndrops), Juvi Chagas (@ajuvichagas), Lara Santana (@larasantana), Malhassaum (@malhassaum), Porta dos Fundos (@portadosfundos), Renata Felinto e Victor Arruda.
4. O eu proliferado
Neste núcleo, a curadoria volta-se à explosão do “eu” nas redes sociais e à forma como a vida privada se tornou espetáculo. A internet deixou de ser apenas um espaço de compartilhamento para se tornar um palco de autoperformance. A construção de si — por meio de selfies, dancinhas, relatos, confissões e personagens — tornou-se prática cotidiana, revelando tanto o desejo de existir publicamente quanto os efeitos dessa hiperexposição.
O núcleo aborda a dramaturgia do “eu” como potência e armadilha. Se, por um lado, possibilita a afirmação de identidades historicamente apagadas, por outro, evidencia o impacto subjetivo da lógica neoliberal que transforma autoestima em mercadoria e precariza o bem-estar mental.
Alguns criadores presentes no núcleo são: Blogueirinha (@blogueirinha), Coach de Fracassos (@coachdefracassos), Frases Pra Você (@frasespravoce), Galinhas Inseguras (@galinhasinseguras), Gretta Sarfaty, Jacira Doce (@jaciradoce), Lenora de Barros, Nathalia Cruz (@nathaliapontocruz), Panmela Castro, Pedro Vinicio (@pedrovinicio80), Regina Vater, Telma Saraiva, Valentina Bandeira (@valentinabandeira) e Valeska Soares.
5. Combater ficção com ficção
A polarização política e a radicalização do discurso público são temas centrais deste núcleo, que examina o papel dos memes na disputa simbólica do presente. Ao mesmo tempo em que são ferramentas de enfrentamento, síntese e resistência, os memes podem também ser veículos de desinformação, exclusão e violência simbólica. A curadoria propõe aqui uma reflexão sobre os usos éticos do riso, compreendendo o humor como forma sofisticada de diplomacia, mas também como instrumento perigoso nas mãos do autoritarismo. Entre memecracia e memecrítica, este núcleo convida a pensar: como rir sem reforçar os estigmas que queremos combater?
Alguns criadores presentes no núcleo são: Augusto de Campos, Claudio Tozzi, Dolangue News (@dolangue.news), História no Paint (@historianopaint), Juju dos Teclados (@jujudosteclados), Marcelo Tas (@marcelotas), Pasquim, Paulo Gustavo, Porta dos Fundos (@portadosfundos), Regina Silveira, Saquinho de Lixo (@saquinhodelixo) e Sensacionalista (@sensacionalista).
Epílogo – Memes: o que são? Onde vivem? Do que se alimentam?
Encerrando o percurso, o epílogo da exposição abraça a impossibilidade de definir os memes de maneira definitiva. Ao invés de uma resposta fixa, a curadoria propõe uma provocação coletiva: como cada pessoa compreende o que é um meme? O que eles significam hoje? O epílogo contou com a colaboração da equipe do #MUSEUdeMEMES, da Universidade Federal Fluminense, coordenada por Viktor Chagas, maior estudioso de memes no Brasil, e apresenta 10 entrevistas com criadores brasileiros, como Gregório Duvivier e Malfeitona, que respondem, em vídeo, essa indagação existencial com liberdade e afeto. Aqui, o meme é entendido como forma fluida, mutante e bastarda — que habita os interstícios da linguagem, circula entre mídias e revela, no improviso, a imaginação crítica do nosso tempo.
Serviço:
Exposição |MEME: no Br@sil da memeficação
Curadoria| Clarissa Diniz e Ismael Monticelli, com a colaboração do @newmemeseum
Visitação | De 2 de dezembro de 2025 a 1º de março de 2026
Terça a domingo, das 9h às 21h, com entrada na galeria até as 20h40
Acesso | Gratuito, mediante retirada de ingresso no site bb.com.br/cultura e na bilheteria física do CCBB Brasília
Classificação Indicativa | Livre
CCBB Brasília
Funcionamento: aberto de terça a domingo, das 9h às 21h
Endereço: SCES Trecho 2, Lote 22 – Edif. Presidente Tancredo Neves – Setor de Clubes Esportivos Sul – Brasília – DF
Fone: (61) 3108-7600
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